29 setembro 2009

O outro lado.

Debaixo deste sol,outro sol coincidente...
Por dentro das pedras,
outras pedras de bruma ...
Feliz gente !
Com duas realidades
- e eu sem ter nenhuma.
~~~~~~
Vem hoje um aroma tão bom lá de fora do mundo!
Um cheiro a canteiros de primavera
com deusas de astros na fronte
e enlaces de folhas de hera
no cabelo voado ...
Ah! se eu encontrá-se a ponte
que vai para o outro lado !

28 setembro 2009

Pedras.

Deitei-me de bruços na terra
- cadáver com flores -
na esperança fria
de ouvir pulsar nas pedras
um coração, talvez ...
Mas em vão! Em vão!
Levanta-te, poeta,
e dá o coração ao mundo.

24 setembro 2009

Recantos.

Neste recanto de pedras
sem ressurreição,
erguemos um dia uma barricada,
bandeira de pele humana no candeeiro,
sóis podres,
bocados de lua,
estrelas de morte apagada,
armas de nevoeiro.
Nós.
Ninguém.
Eu.
Outros com este incêndio que trago em mim.
E esta angústia tão fácil
que vem dos gritos da noite
com toda a treva herdada
dos primeiros homens.
O sol é mais difícil.
Ouro fundo
que parece superfície.

23 setembro 2009

Sensação.

Sabão nos olhos
para lavar as lágrimas
por haver dor.
Lá fora na rua gritos de crianças
que buscam nos caixotes
tesouros de trapos e de papel.
Sensação romana
de me banhar em lágrimas de escravos
- a quem os chicotes
despiram lentamente a pele.

21 setembro 2009

A noite.

Toma a minha noite...
Lama turva de espinhos
na profundidade dos muros
com o lume ainda escuridão
misturado de sémen e urtigas...
Pântano de sonhos mortos
onde as únicas asas
são as espirais dos corvos nos teus lábios
a devorarem um céu de nuvens...
Fúria sonâmbula dos calabouços
com a boca a saber a abismos
e as labaredas a torcerem-se
em busca de mais noite...
Ah! mas como tu transformas tudo
num jeito de rosas e de lua!

17 setembro 2009

Migalhas.

Ah! quanta vontade eu tenho
de esbofetear o Silêncio!
De rasgar o céu com unhas de raiva
para ver cair da Noite um sangue qualquer
nesta bola de ira
onde uma criança quase nua,
sozinha no universo,
abre os olhos para haver estrelas...
Sim, estrelas colocadas ali de propósito
para lhe enfeitarem a fome
com migalhas dum pão que ninguém come.

16 setembro 2009

Rua deserta.

Nestas árvores
onde até os pássaros se enforcam nos ninhos,
há muito tempo que mora
uma ninfa de carne incerta
fugida da borrasca
dos caminhos.
Bato-lhes de mansinho na casca...
Sou eu, ninfa. Abre.
Estamos os dois sozinhos
nesta rua deserta.
Sai cá para fora
e beija-me na boca.
Mostra-me que a vida é louca.

15 setembro 2009

O fogo!

O fogo
não tem hábitos.
Esconde-se para haver primavera
e impudor.
Mas ai do desejo
que não se habitua
aos moldes de cinzas depois de secar a flor.

14 setembro 2009

O perfume.

Por dentro do perfume das flores
já não anda a tua boca
a beijar as estrelas
na cor do silêncio
- para além do gosto agudo das mucosas.
Agora no luar caído
só uma boca de gelo
morde o perfume das flores ...

11 setembro 2009

Mãos inocentes.

No recanto do jardim
neste dia de nevoeiro forrado de olhos cegos,
o menimo pôs-se a escavar a terra
e, de repente, parou ao sentir a mão a arder
com manchas de sol puro
enterrado pela morte dos deuses
que lá deixaram
a esperança suave e doce
da pele dos dedos.
Ah!, deixa, deixa-a arder bem,
a mão,
o pulso,
o braço
archote da labareda inocente
com que um dia criarás
um mundo diferente
com outro peso branco nas sombras.
Um mundo de fábricas de justiças delicadas
onde, em vez de folhas,
cresçam nas árvores
ventos de cabelos femininos.
E em cada pedra, em cada fruto, em cada lago,
em cada pétala, em cada vulcão,
ouviremos todos bater
no centro do planeta
o teu coração.
... com ritmo de pólen
- menino das mãos a arder.

09 setembro 2009

Mundo das palavras.

Neste mundo de palavras sonâmbulas, meros acontecimentos de sombra - "bons dias, boas tardes, boas noites" - não queiras transformá-las em pontes para o país que sonha barricadas irreais. Aprende a vergonha de não arrancar das palavras bandeiras de punhais. E deixa bocejar as fontes.

08 setembro 2009

Volúpia.

Os dedos
dissolvem-se no rosto,
na espuma dos cabelos,
nas pernas, nos pés,
no sexo minucioso ...
Tudo o que a volúpia requer
para o desenho da água ser mulher.

07 setembro 2009

Destroços.

Às vezes eu paro diante do meu passado
de lua em destroços,
ruíram as telhas,
e não sei que dor ainda me fere
no apertar e torcer com o alicate.
Então entro ... Espaço de ossos.
Urtigas. Pedras velhas.
E a um canto
um coração já sofrido de mulher
bate ...
Ainda bate.
Agrestemente bate.

04 setembro 2009

Perfil.

O abismo é a palavra necessária
para a angústia parecer mulher
no perfil da penumbra.
Esta mulher
a pairar agora no vale
com asas nos olhos de voo
- a rasgar por dentro das árvores
iluminações
de frutos de ouro.