17 fevereiro 2013

Noite





Enterrava-se a noite,
metia-se a sombra debaixo das pedras
e esperava-se o espanto de vê-la continuar
de mãos dadas
com a luz,
nas palavras,
nos gritos,
nos olhos das barricadas,
nas flores com dentes.

A noite 
tinha a utilidade das sementes.





14 fevereiro 2013

Sonhos



Enfim no céu de todos
a plena condição 
de anjos mutilados
que não tardarão
a mostrar de astro em astro 
a tragédia total
de sermos insectos
tão nus para imaginarmos a verdade.

Apenas solidão  
de deuses que recusam o trono.

Ah ! nunca o homem foi tão duramente real
como neste teu corpo imponderável
só com o peso do sonho.


(Todos os créditos vão para ti em nome da estima e amizade)

13 fevereiro 2013

Frio





Duas mãos desfeitas num fio
em volta do pescoço,
arrepio 
de terra e fogo.

Depois enterraram-na no rio
para que espere,
como o outro também, a dormir no mistério do seu recanto,
a trombeta do último apelo
que os torne de novo homem e mulher
com flores na fluidez do sexo
e no cabelo
de sombra em cio.

Dos olhos de ambos
corre agora o sangue de se verem ...

Mas na noite só se ouvem
os passos do rasto negro e frio.




11 janeiro 2013

Trevas






Meti a chave na fechadura,
abri a noite
e entrei no palco onde me espero
a chorar nos espelhos,
desgrenhado pelos subterrâneos do vento
da treva impura.





07 janeiro 2013

Azul






A este desespero azul
de te querer sempre ao pé de mim
chamam os homens amor.

Mas o amor é outra raiva
de arrancar o sol da lua.
Andar com andorinhas na algibeira
e dependurá-las na  chuva ...





12 dezembro 2012

Bruma





Inconfôrto
de amar em bruma
a sombra visível.

Débil angústia
de sol morto
no amor medido.

Ai dos poetas com obrigações de corpo !






10 dezembro 2012

Vento





Ah ! só um segundo
com o mundo
de acordo comigo ...

E até os homens dormiriam nas nuvens
a ver o vento a ceifar o trigo.






26 novembro 2012

Melancolia




E  cá estamos
a ouvir o vento que chora
na boca voadora
por cima dos telhados.

E cá estamos,
a ouvir cair na chuva dos ramos
lágrimas de fantasmas enforcados.

E cá estamos ...

Alma ! porque te prendes, 
até que a dor a anule,
a esta escuridão
onde nem sequer há duendes
de fogueira azul
como no carvão ?





22 novembro 2012

Mundo


Porque não nasci no mundo
 que trago em mim ?

Inútil projecção
do sonho moribundo
da minha geração ...
águia ferida que procura
ainda no azul a sepultura
que a sua sombra  escura
já desenhou no chão.
Luz que só pressinto
como um cego a imaginar o sol
através do luar
que a voz do rouxinol
sonambulamente leva 
ao meu subterrâneo.
Um sol fechado num crânio
que é o outro rosto da treva
sombriamente a brilhar ...

Ou talvez o clarão
do fogo a arder no futuro,
depois do salto do muro.

Porque não nasci no mundo
que trago em mim ?


16 novembro 2012

Noite





Dói-me a boca de silêncio
e vou gritar !
nesta noite de lua mole
a dobrar-se nos telhados
inertes de bafio ...

Chamo-me não sei quem
e vou atirar para a ferrugem do vento
da noite desmantelada
este desafio de acordar o mundo
nas janelas de súbito acesas,
com milhões de vozes
esvaídas num clamor
para além dos lábios fechados
nas faíscas das pedras.

Gritar, ouviram ?

Gritar esta alegria de não sentir ainda terra na boca.
Gritar esta labareda enfim fora dos olhos !






15 novembro 2012

Silêncio






O silêncio é a lei
que começa no princípio do mar
e procura o perfil que reproduz
e ata os desvios
do sonho em linha recta.

Momento movido a luz
que torna a morte inquieta.





Manhãs






Deixei as mãos no prado
a cortar azedas ...
E aqui estou deitado
ao sol das veredas.

Ah ! estas manhazinhas
de mãos sem candeias.
Brincam as minhas.
Suam as alheias.

O pior é se aparece alguma bruxa de unhas pretas
a vomitar brasas
e as caça, confundindo as mãos com borboletas
de cinco asas.






30 outubro 2012

Trevas







Já eu andava pelos corredores
a arrastar
o meu pequeno manto
de palavras
a sofrerem por mim
as minhas  dores.

Rosto pobre
de peso alheio
com algemas de suor.

Só à noite,
quando a treva entrava por mim a dentro
me sentia maior.







22 outubro 2012

Solidão





Deixo sempre alguém fora de mim em mim
no lugar donde parto
flor que a si mesma se corta no jardim,
olhos pegados no espelho,
sempre a ver-me jovem na cama do quarto.

E a mão direita ? Onde deixei essa mão ?
Nos teus seios, talvez. Ou na melodia escrava
em que a vizinha do 2º andar, deitada ao comprido
no chão,
tentava ouvir o próprio coração
no piano em que eu tocava
- ponte sem sentido
de solidão para solidão
num espelho partido.







06 outubro 2012

Lembrança







 Aqui a lembrança
perde, de súbito, o rosto.
Pasta de sangue e névoa,
labirinto escuro na claridade do dia
que só começa a iluminar-se ao sol posto
quando de repente
sinto na mão
que me guia
a cegueira ardente
dos olhos da imaginação.