03 outubro 2012

Palavras






Valem-me as palavras que me deram em criança
e agora rastejam no chão,
atravessam-no,
mortos aparentes,
sombras vivas
com torturas nos dentes
que mordem os cordões,
escondem-se na terra,
unhas agressivas,
sugam o sangue dos vermes
tornam-se líquidas,
juntam-se em símbolos,
rios subterrâneos de metáforas
suor oculto.
Vêm de todos os lados,
química de sons em água,
fonte para um dia,
cinco bicas na mão
- bocas acordadas por fim nas rochas
que, em vez de beberem neblina,
CANTARÃO.


 
 

02 outubro 2012

Passado






 Para que me serve agora essa esperança
e o passado tal como o penso
visto pelos olhos arrancados
aos meus fantasmas de criança
que trago atados num lenço
e de quando em quando desembrulho
com a sensação de viver sufocado de silêncio
debaixo do entulho ?







28 setembro 2012

Mordaça







Também eu, também,
sonâmbulo de versos
gritei em vão
para arrancar as rosas
das pedras do muro.

Agora é a tua vez
de gelo e lume.

Grita, despedaça
com lâminas na boca
esta nossa mordaça
de silêncio imune.





21 setembro 2012

Evasão





Hoje até remorsos tenho
dos meus pobres versos a fingirem de subversivos
que os mortos do rebanho
lêem com o arreganho
de se julgarem vivos.

No fundo, evasão
para futuros sem chão.






12 setembro 2012

Labirinto





Mais uma vez vou chorar em voz alta
já tão farto deste remorso de bandeira aos gritos !

Mais uma vez vou ensanguentar o silêncio
com as unhas da dor dos outros
que já nem sinto
- de tão repetida
sereia de alarme.

Perdi-me num labirinto
e quero ouvir-me
nos gritos ocos
para encontrar-me.






02 setembro 2012

Ilusões








Entrei no café com um rio na algibeira 


e coloquei-o no chão, 

a vê-lo correr 

da imaginação... 



A seguir, tirei do bolso do colete 

nuvens e estrelas 

e estendi um tapete 
de flores 
a concebê-las. 

Depois, encostado à mesa, 
tirei da boca um pássaro a cantar 
e enfeitei com ele a Natureza 
das árvores em torno 
a cheirarem ao luar 
que eu imagino. 

E agora aqui estou a ouvir 
A melodia sem contorno 
Deste acaso de existir 
-onde só procuro a beleza 
para me iludir 
dum destino.










09 julho 2012

Passos









No céu, a lua e as estrelas ...
Na terra, silêncio e gatos ...
E eu às três da madrugada
com passos de rasgar o chão
a ouvir ranger nos sapatos
o violoncelo da minha solidão ...

Esta triste solidão de Deus do avesso
onde até a morte apodreço.










17 junho 2012

Cinzas








Em verdade tudo recomeçará de novo com cinzas
porque tudo começou sempre com cinzas,
donde os homens arrancaram um dia a labareda
com que modelaram um Deus de barro
na lama do rio seco.

O Deus do nada anterior
que no trono mais alto
do sol do princípio
com voz de Ninguém
vai julgar o Silêncio
ao som das trombetas
que não se ouvem
- de tão altas 
e terríveis
nas nuvens sem bocas.








Bruma








Em cinzas, pele,
seda, espuma,
o amor lentamente desfaz-se ...

E ai de quem não encontre nele
a misteriosa moeda de bruma
com a terceira face.








23 maio 2012

Sede










 O pior é esta sede de trevos molhados
e não haver nas pedras
bocas de carne.

O pior é esta sede de caçar ecos
nos corredores estreitos
com armas de mortos revoltados...

...e só haver lâminas de chuva.

O pior é esta sede putrefacta dos poços,
... e a minha boca
só querer nuvens.









07 maio 2012

Mundo






 E não se cala esta voz sem gente
que me persegue na nudez em riste
duma espada.
És o poeta do poente,
ouviste ?
...e mais nada.

Mas no meu coração triste
apodrece a madrugada.









23 abril 2012

Sons






 Já não ouço no som do chicote
violinos de adormecer.

Nem sinto no frio das algemas
asas geladas  de sonho.

Nem vejo nas cicatrizes
os misteriosos sinais
do ser e do não ser ...

Ou nas curvas da correia,
andorinhas a voar ...

Aprendi a ver-me escravo para ser livre.

E agora olho virilmente para o mundo
com estes dez mil olhos de sangue
que o chicote me rasgou na pele.








13 abril 2012

Asas.






 Nunca encontrei um pássaro morto na floresta.

Em vão andei toda a manhã
a procurar entre as árvores
um cadáver pequenino
que desse o sangue às flores
e as asas às folhas secas...

Os pássaros quando morrem
caem no céu.





22 março 2012

Destinos






 Pôs-me o destino nas mãos
um novelo de mil linhas ...
Umas de oiro... outras de prata...
...outras de arame mais vil...
Mas todas entrelaçadas
numa riqueza confusa.

Pobre novelo complicado
nestas  mãos inúteis
que nasceram para dizer adeus
nas estações de caminhos de ferro.