08 março 2012

Caminhos





 Caminhos  em vão
onde tanto ardeu
o meu coração
em cinzas de só ...

Que lá deixei eu ?
A sombra no chão ?
Os passos no pó ?

Caminhos errados...
...nem pedras, nem céu ...
...nem vales, nem montes...

Que lá deixei eu ?
Os olhos colados
pelos horizontes ?

Estradas perdidas...
com luas de breu
no bosque dos medos...

Que lá deixei eu ?
A pele dos dedos
nas flores colhidas ?

Caminhos de mim
sem nada de meu ...
...nem ódio, nem luta ...

Que lá deixei eu ?
UNS VERSOS SEM MIM
NOS ECOS DA GRUTA.





12 fevereiro 2012

Instante





 Eu.

A andar ...

Mas ao mesmo tempo vou naquela nuvem
onde um deus deixou esquecido
 um raio com ferrugem ...

 E espreito dos poços
 com os olhos levados pelos corvos.

 E entranho-me no chão
 dentro das pedras transparentes.

Eu
em mim, contra mim, alheio, desencontro,
prisma, longe, perto ...

... monte de palavras
em busca do instante
onde sempre morro incompleto.





Fotos de Benidorm (Espanha)

30 janeiro 2012

Manhã






Manhã perfeita
 que nenhuma dor prolonga
 para além da suspeita
de chorarem apenas
as fontes sequiosas ...


Manhã em que tudo é superfície apenas,
superfície longa
nas pedras e nas rosas...


Manhã em que cismo:
dêem-me um abismo !






25 janeiro 2012

Sol






 Árvore seca
prendida do muro,
 um dia, quem sabe ?
 ...talvez o sol
 caia do céu
para ficar preso
pelos cabelos
num dos teus ramos...

Árvore sem fruto,
não desesperes.
 O nosso destino
 é um sol enforcado.





24 janeiro 2012

Manhã









 Que manhã esta !
ardente como o entusiasmo dos tambores.
 Onde tudo o que há de profundo nas raízes da floresta
se descobre nas flores.








19 janeiro 2012

Futuro






 E ainda hoje por lá ando a correr
na superfície das manhãs paradas
 a gastar-me como os mortos,
 e a deixar cair invenções de sombras nas estradas.


 Depois perdi as mãos
 de tanto escrever no musgo da parede
por baixo dum desenho obsceno inocente:

 « Futuro, deixa-me continuar a ter sede. »





12 janeiro 2012

Jardim





Meu jardim perdido de flores suspensas,
 meu longínquo jardim
 só de desvios altos,
 tão alheio às raízes de mãos pardas
 que procuravam na terra
 ouro para as flores...

Meu jardim perdido
onde todas as manhãs
rasgava o frio das pedras
 bocas à punhalada
 para as ouvir cantar
a alegria de me sentir fora de destinos
com ilhas de indiferença nos olhos.

Meu jardim distante
onde a liberdade
era saltar com algemas
na relva florida,
... enquanto as árvores,
mulheres disfarçadas de ramos
me esperavam nos caminhos
para me abraçarem, sôfregas,
numa entrega de flores ...

Meu jardim perdido ...
empedrado de desejos
onde em vez de sombra
trazia um sol de rastos.




06 janeiro 2012

Trevas






Em multidão
os homens parecem maiores do que são.

 Nela
a nossa voz,
tão rude quando cantamos sós,
parece mais bela.

 Num coro de cantar
 sai cá para fora
 tudo o que há  em nós de sol e treva  no luar.

 O resto ... os sonhos mesquinhos ...
 ficam para a solidão
dos caminhos.






02 janeiro 2012

Perfume






 Rosas.
Sacudir de gotas de orvalho ...

Passos iluminados de frio
 com pés de punhais
 e a sensação duma caminhada do fundo dos tempos
 até aos breves gumes
 das flores finais.

 Limites para a exactidão doce dos perfumes ...










28 dezembro 2011

Acaso


 Acaso azul de pedras e de flores
 a que o homens chamam primavera...

 Coincidência de árvores e de céu
 com o sol a alegrar tudo o que existe ...

Tudo menos eu !

Eu que não ando às ordens do sol nem da lua,
nem de nenhum clarim,
e vim hoje de propósito para a rua,
pálido e triste
- para me vingar de mim.



22 dezembro 2011

Tédio








Esta noite,
  em combinação com o orvalho
 vou pôr explosivos secretos
em todas as flores ...

... para decepar as mãos das mulheres resignadas
que todas as manhãs
enfeitam as campas
 de pétalas e perfumes
em louvor da morte crédula
dos mortos na cama.

Outra noite
em que, farto de insónias e de rugas,
vou mais uma vez sofrer
o tédio submisso
em que me róis e sugas.







15 dezembro 2011

Solidão






Nunca mais
deixes sangrar no coração
esse violino de punhais
a que chamam solidão.

Transforma-o noutro violino de astro fundo,
para que a tua canção
chegue à nossa pele
e aqueça o mundo ...
embora te gele.





12 dezembro 2011

Mistério






De bruços
desenho uma boca na terra.

 Beijo-a.

 E de súbito
 o mistério é uma mulher que se descerra.

O mistério restrito
do planeta a devorar-se,
de morte em morte, de infinito em infinito,
fechado num cárcere.

Esta estreiteza 
em que me doo
de ave presa
ao próprio voo.





06 dezembro 2011

Olhos




A tua voz deu-me outra vez o calor da terra
 - o cheiro ao rasto das flores pisadas.

E agora que me importa o céu ?
 E os astros de garras azuis que me arrastam até aos abismos
 onde as águias assassinam as manhãs ?

E que me importam os cemitérios da noite
quando os fantasmas enterram os cadáveres de vento ?

 E as luas clandestinas nos corações dos mortos ?

E as mulheres deitadas nas nuvens
com sexos metafísicos nos relâmpagos ?

Só quero a terra, ouviram ?

A terra redonda dos teus olhos de ninho quente.
A terra sólida das nossas sombras no chão à espera de flores.
Sim.
As flores existem.


05 dezembro 2011

Tédio

Ávila (Espanha)





Muros de cinzas azuis nos olhos
- para ninguém entrar.

Nem o mundo, nem as asas, nem o sol,
nem o suor das flores.

Apenas a tristeza
da solidão dos espelhos desabitados.






Cádis (Espanha)