09 outubro 2010

Vazio

Maquinações de bocas tortas
empalhadas em sol passageiro.

Palavras mortas
sem sabor nem cheiro...

Sons em que não existem portas.

16 setembro 2010

Ruas

Aqui nestas ruas
andei tantas noites
com vielas sujas
e mordaças de pedra.

E que portas abri ?

As estrelas
só tinham portas para as sarjetas
onde o meu rosto
roía nuvens.

Enquanto os outros que passavam,
como hoje, como sempre, como nunca,
continuavam a ver em mim
esta solidão de bandeira
à frente de coisa nenhuma.

(Imagens: Puerto Banús)

08 setembro 2010

Estrelas

Em criança
às vezes modelava perfis de terra
com a lama dos quintais.

Mas parava triste
ao sentir-me mais só.
Estrangulador de abutres
de mãos secas
que um dia hás-de escalar o céu
para dar o verdadeiro fogo, o nosso,
à solidão das estrelas.

(Imagens: Marginal e praia de Fuengirola, em 09/2010)

26 agosto 2010

Palavras

Ar
onde por fim os deuses se perderam
nas veredas dos astros
contentes por tudo parecer concluido,
cada coisa com o seu rosto ignorado.

Entretanto os homens já existiam
resignados ao desdém de respirar...

E com as palavras
começavam a protestar contra o silêncio
- a doce língua morta dos deuses.


(Fotos: Vilamoura, em 07/2010)

Fogo

O fogo
é este bafo húmido dos homens,
prolongamento dos dedos,
sangue fora das veias,
raiva de fugir de mim
por liberdade  em êxtase.

E não o suor vivo
que arde nas lareiras.

Ah! a lenha cheira tão bem a flores com outro sentido!


19 agosto 2010

Sombras

Ah! como odeio
este sentir-me alheio
a tudo quanto amo
e creio!
Os pobres, o sonho, o mundo com falta de pão...

E saber que nunca voltam ao ramo
as sombras das folhas no chão!...

16 agosto 2010

Frio

Aqui nesta praia amarela ...
tanto esperei em vão pelo princípio do mundo
com os pés a doerem-me
como conchas de sangue no nu dos tapetes...

Depois despia-me
e desafiava o mar
para sentir na pele
aquele frio antigo tão doce como alfinetes...

11 agosto 2010

Corpos


Que é isto ?

Todas as mulheres na plateia
desabotoaram os vestidos
para mostrar os seios nus
à espera das bocas que voavam
na escuridão da sala.
Às vezes para completar a música
falta apenas que os homens e as mulheres
se confundam
no deboche
de um acorde.

Hoje as mulheres são diferentes.
Vieram de outro planeta nos raios do sol
e esconderam-se por dentro das flores
no gozo depravado do pólen.

Oh! a naturalidade com que as mulheres passeiam os corpos
... instrumentos dos deuses.

10 agosto 2010

Vento


A esta hora
espero sempre ouvir a confissão impossível
da boca das pedras.

Impossível porque talvez não houvesse crime
ou foi tão perfeito que ninguém o cometeu.

Ou sonhei-o apenas para dar sentido às pegadas
que o vento apagou aos gritos
no meu jardim de lâminas.

Ficou apenas o cadáver que se desfez a si mesmo
com ácidos de penumbra,
enquanto o assassino olhava aterrado
para as suas mãos puras.

06 agosto 2010

Dúvidas

Hoje, para mim o sonho e a realidade
confundem-se no mesmo fel lascivo
de subterrâneo sujo ...

Mentira ? ... Verdade ? ...
Sei lá se sonho ou se vivo !
Fujo.
~~~~~~
Hoy para mí el sueño y la realidad
se confunden en la misma hiel lascivo
como un sótano sucio.

Mentira? ...En serio?...
No sé si sueño o si vivo!
Corro.
~~~~~~
Today, for me the dream and reality
become confused in the same gall lascivious
underground dirty.

Lie?... Really?...
I don't know if I dream or alive!
I run.
~~~~~~
Aujourd'hui, pour moi le rêve et la réalité
se confondent dans le fiel lascive,
souterrain crasseux.

Mensonge?... Vrai?...
Je ne sais pas si je rêve ou si je vis!
Je cours.

03 agosto 2010

Rumos

Acabaram-se os pequenos rumos
no desespero do mar vil.
Acabaram-se os voos exíguos
nos horizontes das águias cegas.

Agora só há no mundo o grande destino
que iguala todas as pedras e todos os olhos
na mesma grandeza
da cidade a arder
na noite sem limites.
(Fotos: Praia da Galé)

27 julho 2010

Sentidos


Olho para o céu imenso
com desespero comovido.
Aquela nuvem sou eu que a penso
ou nada tem sentido.

Fotos: Praia da Rocha (Portimão)

26 julho 2010

Manhãs.


Foi numa manhã de flores lúcidas,
com o sol a nascer oculto,
que vi de repente
remper das pedras e das árvores
uma luz de terra
a iluminar a discórdia de tudo
da harmonia de haver alma
a sangrar da realidade.

E desde então
fiquei preso ao suor do sol do mundo
pelas algemas da liberdade.

(Imagens: Marina de Vilamoura, na hora do café matinal)

09 julho 2010

Tudo sonho ...


E se o tecto abatesse de repente
e víssemos no céu
as nuvens, a lua e as estrelas ?

Tudo sonho ...

É impossível existir a lua
e aquele saxofone tocado por um preto
com dentes brancos a açucarar a música.

02 julho 2010

Matinal


Não.Hoje não me espanto.
Quero viver como os outros
e sentir no meu canto
a alegria dos potros
numa planície matinal
onde tudo, tudo,
tudo parece natural
e explicado.
Mas, sobretudo,
eternamente parado.

Imagens: Praia da Rocha (Algarve)