15 outubro 2008

Ilusão.

Um dia, a solidão
-que dor de vergonha!-
levou-me pela mão
para o seu baluarte
e disse-me: «sonha!
O sonho é a tua lei!»
E eu para ali fiquei,
tão farto de ser eu,
a ouvir o meu coração
bater em toda a parte,
nos astros do chão,
nas pedras do céu.
E eu para ali fiquei
a arrancar a carne com as unhas,
a viver sem testemunhas
no espelho de mim.
E eu para ali fiquei
com o mundo a obedecer aos meus caprichos:
a luz, as flores, os bichos
e o sol enforcado na floresta,
na alucinação
duma corda de lava
a baloiçar ao vento da minha alma à solta...
E eu para ali fiquei
-pobre de mim que ignorava
a dor da verdadeira solidão
que é esta! que é esta!...
Muita gente à minha volta
e eu aos tombos pelas ruas,
longe de todos e de mim,
a morrer pelos outros
em barricadas de estrelas e de luas.

13 outubro 2008

Vento.

( Aveiro)
Todos os dias passo à tua beira
árvore que tens nos troncos e na tua rama
um destino igual ao meu.
E o mesmo rumo
sem chama
nem fumo.
Aranha de solidão
a tecer como eu
cinzas de não haver fogueira.
Todos os dias passo à tua beira ...
( Mas ai de quem só tem chão !
- sem lavaredas
nem asas de um momento
para ir procurar veredas
no país do vento! )

08 outubro 2008

O corpo.

Dia de horizontes com dez metros

e este azul do céu opaco

que toco com as mãos ...

Dia de alegria sem os limites

em que ninguém nasceu esta manhã.

Nem os perfumes fugiram das flores ...

Nem as lágrimas cairam olhos líquidos...

Nem os voos quiseram ser canções...

E o próprio vento

parou de súbito no Ar

com saudades dum corpo...

(Dia em que não posso mais

e vou saltar o Muro.)

07 outubro 2008

Enganos.

No mar tanta tormenta e tanto dano, Tantas vezes a morte foi aparecida ; Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade, coisa aborrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde estará segura a sua curta vida , Que não se arme e indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno ?

06 outubro 2008

Tédio.

Neste dia a dia de sol e de tédio tudo se esvazia de alma, sem remédio. Sabe-me a metal olhar para as coisas ... E é tão maquinal ver florir as rosas. Nem sequer me iludo em criar beleza, dar-me à natureza como seu conteúdo. Morro pouco a pouco neste calafrio de pisar chão oco sob um sol vazio.

03 outubro 2008

O velho.(*)

Um miserável velho muito se afligia Com um feixe de lenha que trazia: Jogou com ele ao chão, já cansado, E chamou pela Morte, agoniado. Aparecendo-lhe esta, perguntava Com que fim tão aflito a chamava. Rogo-te! disse o velho, de mãos postas, Que me ajudes a pôr o feixe às costas. (*) La Fontaine.

02 outubro 2008

O homem e o sátiro.(*)

Um sátiro teve por companheiro
Um homem, que no frio de Janeiro,
Abrindo a sua boca, as mãos soprava,
Dizendo que com isso as esquentava:
Soprava papas quentes, e dizia
Que para arrefecê-las o fazia.
O sátiro notando a habilidade,
E "cheirando-lhe" mal a variedade:
Diz-lhe: Rua, rua! meu grande amigo;
Rua; que já nada quero contigo;
Marchar; que em quem faz calor e frio
Com a mesma boca, eu não confio !
(*)La Fontaine

01 outubro 2008

Sopro divino.

És uma chama de ternura, Uma brisa carregada de pétalas, Um luaceiro de estrelas Numa noite de Estio . És o sopro de Deus Que faz florir os mundos E traz em si o gérmen De todas as promessas criadoras. Tens a virtude oculta que redime; Podes moldar a vida à tua imagem Bendita a hora em que poisaste Os olhos sobre mim ! No rasto desse olhar, Reflexo sobre o tempo, Regresso ao caos vivo e originário, E, entre o não ser e o ser, Pairo sobre os abismos constelados Como um clarão crepuscular : Sou êxtase, Espírito, Luar ...

30 setembro 2008

O anoitecer.

Procuram guarida as rodas que rodaram na estrada da vida ... Fumos negros saem por chapéus de casas ... Monstos de bronze anunciam as Trindades. Morcegos famintos aguardam o pôr do sol. Cenários de estrelas esperam a vez ...

25 setembro 2008

Ter MÃE.

Bati naquela porta aberta e ouvi chamar alegremente -Ó mãe, vem cá , vem cá depressa ! Era pobre aquela casa humilde aquela gente. Ao longe uma mulher respondeu : -Eu já vou, Filho ! Vou já. E logo a seguir perguntou: -O que é que há ? E sem eu querer uma lágrima atrevida rolou-me pela face ...

24 setembro 2008

História de pirilampos!

Há-de dar que pensar, há-de !... Aquela criança de tenra idade que tudo alcança, com simplicidade diz que os pirilampos espalhados pelos campos são pedacitos duma estrela que por ser muito bela a mais bela com certeza, se desprendeu dos céus para mostrar sua beleza. Mas por castigo de Deus, que não gostou da pobreza e da sua vaidade, ela ficou reduzida a uma infinidade de pequenos bocadinhos, que têm agora luz e andam pelos caminhos em busca uns dos outros cumprindo a sua cruz ... Há-de dar que pensar, há-de !...

22 setembro 2008

Terror.

Subi a um auge tal de consciência,
que não distingo a fronte, a flor, o fruto;
Ultrapassei as formas, não desfruto
Mais que o fluido afluir da pura essência.
Desde que o manto negro da aparência
Caiu, no meu silêncio íntimo escuto
Rolar no abismo o rio do Absoluto,
E olho-me na divina transparência.
Ali sou gota unida à imensidade.
Rasto fugaz do Espírito no plasma,
Sumi-me. Eis-me de lá, na Eternidade.
E ao recordar-me do meu próprio fim,
Vejo-me em ser e vejo-me em fantasma,
E os dois gritam com terror... de mim !

20 setembro 2008

Gota de água.

Ó gota de água
que cais agora
das folhas das árvores
sobre mim,
diz-me -- donde vens ?
dum lago ?
dum rio ?
dum mar ?
ou és mesmo lágrima
duma donzela virgem
que chora a morte
do poeta ?
Sejas o que fores
ou venhas tu donde vieres
eu te saúdo
gota amiga,
eu te quero
imensamente bem.
E quando voltares
a subir mais alto
- hás-de voltar !
não te esqueças
de mim
que tenho sede
de ti,
por não poder
viajar contigo
por tempo
indefinido ...

19 setembro 2008

Chove...

Chove ...
Mas isso que importa !,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir na chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu ?
Chove ...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.