17 setembro 2008

Viver !

Pobre poeta
que vês
o mundo
com o coração
nos olhos ;
que choras,
embora as lágrimas
não corram
em teu rosto ;
que te julgas
única vítima
nos escolhos ;
que compartilhas
com o teu semelhante
no desgosto ;
que sofres
se vires sofrer,
e que ris
quando vês rir ...
É este o teu viver
porque não sabes
fingir !

16 setembro 2008

Silêncio.

As crianças atiravam o Sol uma às outras a brincarem no pátio entre gritos alegres de poeira. Não percebo porque os deuses em vez de viverem com os homens nos esperam na sombra com caveiras de incenso e invenção de pequenos enredos na morte para entreter o silêncio.

12 setembro 2008

Reflexos.

À noite
lançávamos a âncora para as nuvens
por proposta minha
ou encalhávamos o barco
nas areias
do rio.
Enquanto as sereias
vinham ao de cima
brincar nos reflexos das águas
com olhos de lima,
cabelos de algas,
despenteios de espuma trazida do mar.
Eram ao mesmo tempo
mulheres, peixes, aves e frio
que nadavam no luar
e voavam no fundo do rio.

11 setembro 2008

Rosto.

Às vezes arrancava o rosto

e colava-o no vidro da janela.

Adeus !

Saía.

E ficava a ver-me afastar-se

aquele vulto tão diferente de mim,

sombra na areia macia.

Mas quando voltava

lá estavam os meus olhos

à minha espera no espelho.

E a um canto,

restos de mim,

ossos de frio,

pálpebras de espanto,

sabor a fel.

E um maldito bloco de gelo

que não deixava chegar nenhum navio

às âncoras ferrugentas do meu porto.

10 setembro 2008

Fonte.

Secaram as minhas lágrimas

secaram para sempre

e eu que queria chorar

chorar eternamente,

não posso.

Ó Fonte lacrimosa,

brota de novo sem cessar.

brota para eu me aliviar

deste remorso

que paira dentro de mim ...

- Remorso de quê ?

perguntas-me tu, ó Fonte,

se eu não matei nem roubei ...

Ah! Mas eu sinto-o nitidamente.

Mas porquê ? Não sei !

Não me perguntes. Não sei !

09 setembro 2008

Menino rico.

É manhã, é manhãzinha
a chuva cai miudinha
e há lagoas na estrada,
onde crianças descalças
nelas vão a chapinar ,
a correr e a saltar
com os livros na sacola
no caminho para a escola.
Uma criada fardada
ralha por tudo e por nada
e segura pela mão
menino rico, com botas ,
que também queria brincar
correr muito e saltar
como os outros todos vão.
E a tristeza não encobre
pois preferia ser pobre
do que caminhar com mágoa,
olhando os pèzitos nus
dos que chapinam na água ...

08 setembro 2008

Harmonia.

A poesia não está nos versos que te escrevo, mas na harmonia do teu corpo, no teu cabelo ao vento, na frescura dos teus lábios, no teu belo e puro pensamento. A poesia não está nos versos que te faço, mas no teu colo de Mãe, na forma das tuas ancas, no teu coração vibrante, nas tuas mãos débeis e brancas. A poesia não está no meu poema, mas no Sol, no Céu e nas Estrelas na própria cor dos olhos teus. A poesia está em ti e em toda a Natureza e o grande poeta ... foi Deus !

05 setembro 2008

Poeta.

Ser poeta não é rimar amor com dor
ou oração com devoção.
É gritar no silêncio dos séculos,
é sofrer a fome das crianças,
é chorar lágrimas de sangue
sem que ninguém veja,
é dar sem que nos peçam
porque um poeta
não é um benemérito,
é um louco !
Dá tudo quanto tem
e, é tão pouco ...

04 setembro 2008

Areia.

Oh! a primeira pegada
na areia molhada ...
E um homem de pé
a olhar em redor
para o sonho do céu,
dos peixes e das ondas,
num querer arrancar-lhe
a dor da realidade.
Oh! a primeira pegada
na areia molhada ...
E a sombra dum homem
a erguer-se das pedras
com pés de deusa azul
para atravessar, sozinha,
as águas e as nuvens ...
- e ir criar o mundo
com mãos de tempestade ...

03 setembro 2008

Planície.

Sózinho na planície múrmura de flores, com árvores em garra, levantei-me de súbito num grito: O mundo não é só dos pássaros e do vento! Mas nosso , também. De nós , os homens , que criamos os deuses para os estragular depois - pálidos de acreditar. Sózinho na planície múrmura de flores...

02 setembro 2008

Silêncios.

Livre dos mistérios próximos pus-me a escutar no silêncio aquela flauta que ninguém toca e só os poetas ouvem na verde bruma da tarde. E com ternura aflita senti subir de mim mesmo a dor enfim nua, tão alheia à terra, tão subtil de fumo -mas só minha, só minha!- despida de mundo em dor que não dói ... (Que bom ! sofrer nuvens...)

01 setembro 2008

Fontes.

Poeta: continua a arrastar a solidão da tua ilha de sombra atada aos pés. Mas resiste a mostrar as cicatrizes dos montros roedores que te rasgam de lés a lés. Afoga nos olhos a ternura das fontes que no fundo das raízes imagina as flores. E apaga na boca a fuga quente dos pássaros com asas nos corações. A ternura é inútil, como beijar tufões.

29 agosto 2008

Poesia.

E a Poesia ?
Onde estava a verdadeira Poesia ?
A que deixava
na praia longa e louca de ventania
um rasto de sinais enigmáticos
de mulher descalça.
Não a via .
Pobre de mim que continuava
a tentar abrir e fechar
as pedras e as palavras
com a chave falsa .

27 agosto 2008

Prata.

Todas as noites na cidade inexacta tropeço nesta pedra com perfil de menina de prata. Imóvel, firmeza irreal, morta por fora na secura dos apelos ... Ontem soltei um grito. Tinham-lhe crescido os cabelos.

26 agosto 2008

Poeta.

Bati com o pé no deserto
e não nasceu uma fonte ...
Toquei numa rocha
e não se cobriu de açucenas ...
Beijei uma árvore
e o enforcado não ressuscitou ...
Amaldiçoei a paisagem
e não secaram as raízes ...
Digam-me: para que serve ser poeta?
(Os santos são mais felizes.)