23 agosto 2008

Salto.

Cansado de dormir no basalto,
morri e meteram-me numa nuvem de elevador.
E agora cá estou no céu alto
com uma estrela no peito em vez de flor.
Mas qualquer dia dou um salto.
(Ou peço a um anjo que me transporte
para não quebrar as pernas.)
Estou farto de céu e quero mundo!
Não quero morte! Não quero dor!
Quero tabernas!

Sombra.

Se caíres
do arco-íris
a tua sombra abre-te os braços
para não te magoares no chão.
A indecisão
dos primeiros passos
na ponte dos séculos
leva agora minutos ...
De pé
colhem-se melhor nas árvores
os astros iluminados nos frutos.

18 agosto 2008

Solidão.

Ah ! pudesse eu saltar da imaginação para arrancar da noite a lua e os cometas ! ... - sangrasse embora o céu e uivassem os poetas na sua escuridão. Ah! pudesse eu suprimir as estrelas com uma espada de versos ! ... - caísse embora um véu de silêncio apagado nesta ilusão de haver janelas para outros universos. Ah ! pudesse eu pedir à poesia que rasgasse o luar e desse à ventania mãos para arrancar os astros das raízes sangrentas no Ar ! ... Ah ! pudesse eu ! ... Para na verdadeira solidão que nenhuma estrela adoça ouvir pulsar enfim o coração na Terra que é só nossa.

Mistério.

Quem és ? Tu que deixaste no céu pegadas de nuvens e atravessaste o mar com pés de espuma para depois te perderes no bosque vestida de areia e farrapos de ventanias ? Quem és ? Quem és ? (Sou eu a acrescentar o mistério do mundo saturado deste mistério de todos os dias.)

16 agosto 2008

A dor.

Não choro. A dor não me pertence. Vive fora de mim na natureza livre como a tempestade. Carrega os céus de sombra, entra nas plantas, desfaz as flores ... Corre nas veias do ar, atrai os abismos, curva os pinheiros ... E em certos momentos de penumbra iguala-me à paisagem. Surge nos meus olhos presa a um pássaro a morrer no céu indiferente. Mas não choro. Não vale a pena ! A dor não é humana.

15 agosto 2008

Luz.

Tudo cansa !
Até o brilho cruel do sol como lança
dos teus olhos nus.
Teus olhos.
Hoje dois delicados pratos de balança
que só pesam a luz.
(E a Esperança.)

14 agosto 2008

Estrelas.

Só olho para o céu
nas noites de lua despida
para atar os olhos nas estrelas
e ver de lá, melhor a Terra e a Vida.
A Terra dos braços dos teus rios.
A Terra dos olhos dos teus lagos.
A Terra do corpo do teu mar.
A Terra em que apetece ser crepúsculo
para adormecer e sonhar.

12 agosto 2008

Pastora.

Das moitas, das pedras e das árvores
sai esta matéria de asas, sono azul
que às vezes parece primavera
na alegria de viver com espectros
- pobre pastora sentada a chorar
na margem do regato.
Depois despiu-se
(afinal tinha o corpo de luz),
mergulhou as mãos no ribeiro matinal
e pouco a pouco o corpo dissolveu-se na água
com peso de sonho ...
Só ficaram os cabelos
e os olhos
onde o mundo boiava num naufrágio irreal.

10 agosto 2008

Ruby ...

Ruby Tuesday (Melanie Safka)

08 agosto 2008

Vazio

Os outros decifram palavras cruzadas
e eu falo e sorrio ...
(Mas a sofrer por dentro, a arrancar o cabelo,
por viver num mundo vazio
e só poder enchê-lo de frio.)
Os outros decifram palavras cruzadas,
enigmas, teoremas ...
E eu de súbito desato a rir às gargalhadas
num tilintar de algemas ...

07 agosto 2008

Noite.

As coisas que a noite me ensinou,

desde domesticar as estrelas

e a esvaziar a lua

dos segredos que douram os medronhos!

Foi com ela que aprendi

a ler nos teus olhos

tudo o que escondes em ti

na transparência do amadurecer dos sonhos.

Deste-me a pele,

deste-me os lábios,

deste-me os seios

e agora dás-me a dor do tamanho dos teus olhos,

a dos poços fundos ...

Eu que tanto sonhei com a outra.

A de criar mundos.

06 agosto 2008

Pudor.

Rasguei-te o vestido de alto a baixo com uma faca de olhos. E ficaste nua e humilhada no meio do universo -com o céu, as árvores, os prédios e as nuvens forrados de milhões de olhos de tristeza a chorarem por mim ... ...Esta chuva miudinha que mal te roçou a pele se transformou em cabelos longos de pudor de água.

04 agosto 2008

Diabo !

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,

mal viu a menina atravessar a rua,

saltou num ímpeto de besouro

e despiu-a toda ...

E a que sempre tanto se recata

ficou nua ...

sonambulamente nua,

com um seio de ouro

e outro de prata.

02 agosto 2008

ilusão.

Entrei no Café com um rio na algibeira
e coloquei-o no chão,
a vê-lo correr
pela minha imaginação ...
A seguir tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendias num tapete de flores
- fiquei olhando-as.
Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.
E agora aqui estou a ouvir
a melodia sem contorno
deste acaso de existir
- onde só procuro a beleza
para me iludir
dum destino.

01 agosto 2008

Arco-íris.

Aboliste a noite
com o teu orgulho de existires
para além dos deuses imperfeitos
com rasto de arco-íris ...
E surgiste intacta,
sem suor nem defeitos,
na majestade da pureza que só imagino
quando vejo o sol feminino
dos teus peitos.