12 julho 2008

Azul.

E se, de repente,
voassem dos teus olhos
duas pombas azuis ?
Então sim, poeta,
cairia pela primeira vez no mundo
o espanto da primavera completa.

11 julho 2008

Boiando nas ondas.

Morrer devia ser assim ...

Boiar estendido numa nuvem

com a cabeça encostada no silêncio

a olhar para o céu,

sempre mais longe,

sempre cada vez mais longe.

(Perto já não é céu.)

Morrer devia ser assim ...

Milhões e milhões de anjos

deitados nas nuvens

com asas brancas nos olhos

numa leveza sem rumo

de penas de frio.

Morrer devia ser assim ...

10 julho 2008

Luar.

As violetas secaram
no aroma do tempo.
Só ficou esta lembrança de perfume
a morrer lentamente
num esvair de acorde
que nada detém.
Oxalá o luar tenha memória
e depois se recorde.
(Para contar a quém ?)

09 julho 2008

Paz.

Volto para trás
nesta paz
de ver nos meus passos
o único sinal profundo
da tarde lilás.
Que bom !
Hoje não quero salvar o mundo.

04 julho 2008

Mulher.

(**)
(*)
PARA A MULHER SER INFELIZ
BASTA-LHE SÓ SER MULHER ,
SEMPRE NAS LÍNGUAS DO MUNDO,
ESTEJA ELA ONDE ESTIVER .
Não fala, tem presunção,
E passa por indecente :
Se fala para toda a gente
Não conhece a posição .
Se vai a qualquer serão
Há uma língua que diz :
"Ela foi lá porque quis
Aparecer ao amante ".
Tudo isto é bastante
PARA A MULHER SER INFELIZ.
Se vai à missa engomada,
Há quem se atreva a dizer:
"Não ganha para comer ,
Mas tem que andar asseada!"
Se vai suja e mal trajada ,
É bandalho porque quer .
Venha lá donde vier
E passe por quem passar,
Para o mundo dela falar
BASTA-LHE SÓ SER MULHER.
Se fica em casa é senhora ,
É fidalga sem ter renda ;
Se trabalha na fazenda
É tida como impostora.
Não tem a triste uma hora
Que a desgraça a não espere.
Faça ela o que fizer
Em favor do seu bom porte,
Falam dela até à morte ,
ESTEJA ELA ONDE ESTIVER.
(*) Poema do meu vizinho M.Alves (Poeta analfabeto).
(**) Pam.Keener painting.

03 julho 2008

Ímpeto.

(*)Que me importa cantar ! Eu não sou poeta de canções para embalar ninhos nos corações. Sou um ímpeto de gelo de lâmina que se levanta mudo diante de tudo. (e quem me impede de ter alma e sede?) Mas quando canto as minhas canções ásperas de vagabundo sabem ao espanto de rio sem foz ... E na minha voz sangra o desespero do mundo. (*) PAM. painting.

02 julho 2008

Flor brava.

(*) PKeener painting. Quando te cantava
não era a ti que eu cantava
- meu cio de flor brava
na secura de Agosto.
Mas outro mistério qualquer
só visível com o teu rosto.
Aquele rosto inconcreto
que um acaso de mulher
torna o mundo mais lúcido e secreto.

Imaginação.

(*) Pamela painting.
Que bom haver realidade ,
a luz, o calor, o cheiro
e estas pedras tão pequenas
a desenharem-se como chão.
Que felicidade
o mundo não ser apenas
o nevoeiro
da minha imaginação !
(Viver não é imaginar que se vive.)

01 julho 2008

Emoção.

(*)

~~~~
No teu corpo quase, quase nu,
Eu ia passando a minha mão.
Tranquilo um pouco, como tu,
Sentias uma divinal sensação.
Eu sentia, tu sentias emoção,
E a tua mente quase ausente.
E, eu sentia bem teu coração,
Compreendia bem tua mente.
Depois, eu abria a minha mão,
Eu...bebia toda a tua emoção.
~~~~
(*) Pkeener painting.

Ternura.

'BONDADE'

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Days of kindness (*).

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(*) Poema de Leonard Cohen.

30 junho 2008

Ondas.

Com o mar,
as curvas das ondas
e o dorso de um peixe ao luar
fiz uma deusa
que criou o mar.
( E depois deitei-me ao comprido
com o mistério resolvido. )

28 junho 2008

Amigos.

(*)

Amigo ! Maior que o pensamento,

Por essa estrada amigo vem.

Por essa estrada amigo vem.

Não percas tempo que o vento,

É meu amigo também.

Não percas tempo que o vento,

É meu amigo também.

Em terra, em todas as fronteiras,

Seja bem vindo quem vier por bem.

Seja bem vindo quem vier por bem.

Se alguém houver que não queira,

Trá-lo contigo também.

Se alguém houver que não queira,

Trá-lo contigo também.

(*) Poema cantado pelo bom amigo "Zeca". (Para onde partiu, está em paz!)

27 junho 2008

Recordações.

Oh ! viçoso jardim que eu cultivei
Na ninha mocidade tão distante !
Das flores tão sigelas que cuidei ,
Não morre o perfume inebriante.
E tudo, tudo só porque o destino
Me convidou, no berço de menino,
Que amasse as musas com fervor.
Mas que farei sem ti , inspiração ?
Não demores; meu pobre coração
Aguarda o teu carinho, o teu amor.
Andas longe de mim, que mal te fiz ?
A árvore não vive só e sem a raiz
E poeta sem ti não é nada, ninguém.
Oh! Musas consagradas socorrei-me
Quem és, amparai-me, protegei-me,
Eu, sem ti , não posso ir mais além .

26 junho 2008

Tejo.

Brandas águas do Tejo, passando
Pelos verdes campos que regais,
Plantas,ervas e flores e animais ,
Pastores, Ninfas, ides alegrando;
Não sei ! doces águas! não sei quando
Vos tornarei a ver ; que mágoas tais,
Vendo como vos deixo , me causais ,
Que de voltar já vou desconfiando .
Ordenou o destino, muito desejoso
De converter gostos em pesares ,
Partida que me vai custando tanto.
Saudoso de vós, mas dele queixoso,
Irei encher de suspiros outros ares,
Turbarão outras águas meu pranto.

24 junho 2008

Bolero.

Gosto de me sentar nas dunas do meu mar... olhando para o horizonte !

Só Maaar !!!

Gosto de pensar muito ... em NADA !

(Gosto de Maurice Ravel . É bom para a saúde mental !)

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Aqui estou eu a olhar para os espaços

Sentado em um banco da "Avenida"

Com o tempo a dormir em meus braços

Como uma ninfa ao sol... adormecida.

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